(...)
" Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.
(...)
Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender. Porque quem entende, desorganiza. (...)
(Clarice Lispector - Mineirinho in: Para Não Esquecer (crônicas) - Ed. Siciliano)
Ação de Graças
(em 02/01/2009)
Quero agradecer ao passado que, retornando de esquecidas memórias, me fez relembrar Marx :
"A história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa". O que me proporcionou tentar reconstruir um quebra cabeças, que acabou uma vez mais ficando incompleto.
É que, ao longo dos anos, (longos anos) perdem-se peças essenciais. E é importante saber que algumas imagens ficarão assim: incompletas. Nem por isso menos belas.
Por vezes persistir, colando remendos nos vazios pode resultar em algo grotesco, falso.
Falsas memórias nos espaços que o tempo engoliu.
Uma imagem verdadeira, mesmo que incompleta é sempre bela. A isso agradeço.
A oportunidade, dada a poucos, de tentar reconstruir. Ainda que para entender que nem no passado se encontravam as peças necessárias para compor um quadro harmônico. E, sobretudo, agradecer ao presente que me tem dado a oportunidade de refletir , entender e aceitar meus medos e os do Outro, tentando manter aquecido em mim o amor pela vida no que ela tem de mais rico: a diversidade das pessoas, suas riquezas e suas limitações.
Reconhecendo em mim o Outro que me atemoriza, me atrai, me ama, me rejeita, é forte, é fraco, é corajoso, é pusilânime, é contraditório, é maravilhoso.
Reconhecendo que se escolho olhar para um espelho não conhecerei nada, pois o espelho revela apenas a face que quero ver. A face mais bela. Ainda que o que É não me seja possível captar em sua totalidade.
Este ano começo meu longo e infindável aprendizado de amar ao Outro "na sua total e gratuita inutilidade"
E a dar o salto no escuro em direção à relacionamentos humanos que não sejam mesquinhos; fúteis, gratuitos.
Agradecendo a oportunidade de viver cada momento, sempre belo, mesmo que doído.
Adquirindo a sabedoria de que nada é nosso, mas que enquanto permanece é amor e depois que se vai tem que ser agradecimento e não rancor.
Que seja essa minha direção, meu caminho.
E minha ação (de graça)
(Ada)
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