terça-feira, 3 de março de 2009

Sobre Ética e Fé. Ou: Seja porém o vosso falar, Sim, sim; Não, não. (Mt.5,37

Volta e meia (ultimamente bem menos) recebo e-mails com mensagens religiosas.
Alguns até confortadores, com belas imagens.
Mas a maioria não foge ao chavão de sempre.
Em agosto de 2008, recebi um, especialmente chocante, pela explícita chantagem emocional e sobretudo por ter vindo de uma pessoa que amo e que me conhece bem.
Aí fui obrigada a responder, coisa que não costumo fazer, para evitar polêmicas inúteis.
Abaixo, minha resposta, reescrita e sem os erros provocados pela pressa em responder (embora muitos ainda restem, certamente). Omito, por razões óbvias, o nome de quem o enviou.

Chocante!!!!
Mas não gosto muito desses e-mails que pretendem obter a fé pela chantagem emocional.
(Não pretendo te ofender, por favor, sei que você pensa como eu e não tem uma fé cega em nada).
Respondendo...
Ainda prefiro a conversa entre Jesus, Deus e o Diabo que o Saramago descreve em "O Evangelho de Jesus Cristo" à esses e-mails que correm pela internet .
Estávamos falando sobre isso outro dia, no trabalho.
E minha opinião é de que, mais que nunca, precisamos ser éticos e bons porque intuo que estamos absolutamente sem proteção e não resta alternativa senão confiarmos na nossa capacidade de amor e solidariedade (humana, precária e falha).
Lembro-me que desde muito pequena eu me perguntava porque teríamos que ser bons por causa da existência de um Deus. Ou porque esse Deus nos castigaria caso não o fôssemos.

Eu me perguntava então - Mas a gente não tem mesmo que ser bom? Existe outro forma de ser no mundo senão ser bom? Existindo, ou não, um Deus?
Eu descobri, então a desnecessidade de um Deus que me obrigasse a ser ética. Não havia diferença nenhuma se Deus existisse ou não. Porque a bondade me era conhecida, eu via em mim a tendência, que acreditava inata, à bondade. (e nem havia lido Rosseau!). Hoje não sei mais definir exatamente o que seja bondade, nem se ela existe ou não em mim, se não é somente vaidade o que me move e me impulsiona. Se não busco apenas o rec0nhecimento alheio de minha bondade e boas intenções.
São reflexões minhas. (Ando muito reflexiva ultimamente)
Bem... creio que mais que ser bons temos que tentar ser honestos e éticos, o que exige um combate constante e ininterrupto com a nossa tendência à , na hora mais difícil, fechar os olhos. Um combate constante à nossa mania de apelar, quando nos faltam argumentos, à chantagem emocional e à manipulaçã0.

Acho que mais que ser bons temos que aprender a assumir responsabilidades, aprender a dizer sim, sim; não, não. Isso também é bíblico e é muito sério e difícil de entender, muito embora tenha se tornado chavão, como a maior parte do belíssimo e comovente Sermão da Montanha .
Não dizemos sim com sinceridade e não dizemos não sem culpa, isto quando arriscamos dizer algo.
No mundo do trabalho a tarefa mais árdua e extenuante hoje, é ser fiel a si mesmo, pois implica, o mais das vezes, nadar contra a corrente e por isso mesmo, ser deixado para trás, como um anacronismo.
Nas relações de amizade, ser fiel à si mesmo, significa abalá-las por muito tempo (ou para sempre), pois o amigo de hoje espera que você seja cúmplice e não verdadeiro.
Se quisermos olhar nossos defeitos teremos que, possivelmente, recorrer aos inimigos.
Por isso não aceito nem aceitarei jamais as críticas à falta de fé ou da prática da caridade, do perdão, do amor, enfim das virtudes "cristãs", que visam sempre o Outro, que excluem a auto-crítica, a reflexão mínima que seja. Especialmente vinda de pessoas que tem condições de fazê-la.
Não aceito a postura cômoda de assinar embaixo de qualquer coisa que pareça "cristã" , nem sei fazer isso, sou uma rebelde à procura de uma causa.
Não entendo como nos transformamos em propagadores de correntes lamuriosas como as que circulam a todo momento na internet. As boas intenções à um clique.
Talvez seja a forma que encontramos para
apaziguar nossa consciência quando ela, por vezes, desperta e reclama, por um mínimo que seja, de coragem de fazer diferente e - quem sabe -melhor.
Mas voltando ao e-mail em si. A revolta daquele pai , é a revolta do pai humano.

Não vejo como Deus possa cobrar uma aceitação que degradaria tanto assim à humanidade (ao menos é o que penso). Pois se o ser humano tem a maravilhosa capacidade de indignar-se com o que considera injusto, não tem que ser coerente ou magnânimo, muito menos uma "imitação de Cristo", para exercê-la.
Acho que Deus, se existe, jamais irá cobrar uma tal atitude de qualquer de nós.
Ele não deve seguir essa nossa lógica mesquinha. Se bem nos criou sabe que certamente não costumamos retribuir com gratidão a qualquer preço, aos milagres que nos concede.
Deve conhecer intimamente suas limitadas criaturas, Criador Onipotente que é.
Previsível, portanto, para Ele, que ajamos da forma como agimos.
Mas creio que esse Deus fica muito surpreso e maravilhado quando vê dentre essas criaturas surgir aquele que destoam, os que saem da zona de conforto e ousam fazer diferente, renunciando ao conforto e às benesses que as concessões costumam trazer.

Os heróis, nominados ou anônimos, devem surpreender e encher de orgulho esse Pai celestial.
E é por tais coisas que me interesso.
Porque, "no outono" (?) da vida tento, não com muito êxito reconheço, ser um pouco mais do que o clichê em que tentam me transformar a todo instante.
Se conseguir criar meus filhos de forma saudável, se conseguir escapar do círculo das mesquinharias recorrentes, se conseguir tornar-me uma pessoa menos angustiada e com menos culpas (sinal de que não estarei fazendo tantas "cacas" como antes) se conseguir dizer o que deve ser dito e não condescender com o que não é certo (mesmo que não seja errado) por medo ou fraqueza, acho que Deus, existindo, me dará algum crédito.
Mesmo não esperando nada de mim.
É apenas uma contribuição ao debate, especialmente ao debate interno, aquele que tenho travado comigo mesma...
Beij0s,
Ada

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Hans Magnus Enzensberger

Este não é Dante
Esta é uma foto de Dante.
Este é um filme onde um ator finge ser Dante.
Este é um filme com Dante no papel de Dante.
Este é um homem que sonha com Dante.
Este é um homem chamado Dante que não é Dante.
Este é um homem que imita Dante.
Este é um homem que se faz de Dante.
Este é um homem que sonha que é Dante.
Este é um homem que é a cara escarrada de Dante.
Esta é uma imagem de cera de Dante.
Este é um sósia, um duplo, um gêmeo.
Este é um homem que pensa ser Dante.
Este é um homem que todos, salvo Dante, pensam ser Dante.
Este é um homem que todos, salvo ele mesmo, pensam ser Dante.
Este é um homem que ninguém pensa ser Dante, salvo Dante.
Este é Dante.

Hans Magnus Enzensberger (1929),
poeta, filósofo, historiador, sociólogo,
um intelectual que vale a pena ser conhecido profundamente.

"Para os povos, a História é, e permanece sendo, um feixe de histórias. (...) Ela é aquilo que se observa, que se recorda e que pode ser narrado vezes sem fim: um recontar da história.

(...) A História é uma invenção para qual a realidade fornece os elementos. Não é, porém, uma invenção arbitrária."
(H. M. Enzensberger)
- O curto verão da anarquia - Buenaventura Durruti e a Guerra Civil Espanhola


(um livro imprescindível a todos os que, historiadores ou não, interessam-se, sem preconceitos,
pelas narrativas ou análises historiográficas.)


"Mesmo a 'mentira' contém um momento de verdade, e a verdade dos fatos indubitáveis, supondo que exista, não afirma nada além."
(H.M. Enzensber
ger)

"O próximo a transmitir a história, pelo fato de aceitá-la ou recusá-la, lembrar-se ou ter-se esquecido dela, não prestar atenção ou continuar a narrá-la, este próximo, e provisoriamente o último da série, é o leitor."
(H. M. Enzensberg
er)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Literatura


Gosto demais de poesia, embora não seja versada em literatura.

Sou de uma família ligada às letras e às manifestações artísticas em geral, como "feitores" de artes ou apreciadores, como eu. Herdamos isso de meu pai, principalmente,e se algo tenho que agradecer a ele é isso.

Fazer ou degustar arte nos salva da angústia cotidiana e das mesquinharias da modernidade, onde "tudo o que é sólido desmancha no ar". A fruição de poemas e da boa literatura permitiu-me criar uma reserva de beleza e carinho só superável pela existência de meus filhos. Quando sinto-me miserável e eles porventura encontram-se longe, procuro pelos meus autores da alma e aqueço-me com suas escrituras.
Por isso, volta e meia colocarei aqui algum poema ou trecho de livros que me são caros.

É uma maneira de retribuir o que fazem por mim. Pois, antes de nascerem meus filhos, a literatura me salvou do desencanto, enredando-me em suas teias e dando uma nova dimensão ao meu irrequieto pensar.
Tenho conseguido transmitir isso aos meus filhos, que já apreciam poesias desde que começaram a ler (e até antes, diria).

É o meu legado, como foi o de meu pai para mim. Tenho conseguido com a boa literatura e a boa poesia (mais do que com manuais de educação) dar-lhes uma maneira de refletir a vida que não seja "fast food", fácil ou descartável. Porque se "tudo o que é sólido desmancha no ar" é preciso que cada um crie seu próprio oásis, seu suprimento de beleza, de conhecimento da dor alheia, de calor , de humanidade.
Por isso criarei aqui meu baú de preciosidades - minhas preciosidades.
Oxalá possam os eventuais visitantes gostarem também.
É o meu agradecimento e meu conforto.

Ada



Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares. ~

Hilda Hilst

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

De revolta e amor (ou: para não esquecer)

(...)
" Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.
(...)

Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender. Porque quem entende, desorganiza. (...)

(Clarice Lispector - Mineirinho in: Para Não Esquecer (crônicas) - Ed. Siciliano)



Ação de Graças

(em 02/01/2009)

Quero agradecer ao passado que, retornando de esquecidas memórias, me fez relembrar Marx :
"A história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa". O que me proporcionou tentar reconstruir um quebra cabeças, que acabou uma vez mais ficando incompleto.
É que, ao longo dos anos, (longos anos) perdem-se peças essenciais. E é importante saber que algumas imagens ficarão assim: incompletas. Nem por isso menos belas.
Por vezes persistir, colando remendos nos vazios pode resultar em algo grotesco, falso.
Falsas memórias nos espaços que o tempo engoliu.
Uma imagem verdadeira, mesmo que incompleta é sempre bela. A isso agradeço.
A oportunidade, dada a poucos, de tentar reconstruir. Ainda que para entender que nem no passado se encontravam as peças necessárias para compor um quadro harmônico. E, sobretudo, agradecer ao presente que me tem dado a oportunidade de refletir , entender e aceitar meus medos e os do Outro, tentando manter aquecido em mim o amor pela vida no que ela tem de mais rico: a diversidade das pessoas, suas riquezas e suas limitações.
Reconhecendo em mim o Outro que me atemoriza, me atrai, me ama, me rejeita, é forte, é fraco, é corajoso, é pusilânime, é contraditório, é maravilhoso.
Reconhecendo que se escolho olhar para um espelho não conhecerei nada, pois o espelho revela apenas a face que quero ver. A face mais bela. Ainda que o que É não me seja possível captar em sua totalidade.
Este ano começo meu longo e infindável aprendizado de amar ao Outro "na sua total e gratuita inutilidade"
E a dar o salto no escuro em direção à relacionamentos humanos que não sejam mesquinhos; fúteis, gratuitos.
Agradecendo a oportunidade de viver cada momento, sempre belo, mesmo que doído.
Adquirindo a sabedoria de que nada é nosso, mas que enquanto permanece é amor e depois que se vai tem que ser agradecimento e não rancor.
Que seja essa minha direção, meu caminho.
E minha ação (de graça)

(Ada)