Este não é Dante
Esta é uma foto de Dante.
Este é um filme onde um ator finge ser Dante.
Este é um filme com Dante no papel de Dante.
Este é um homem que sonha com Dante.
Este é um homem chamado Dante que não é Dante.
Este é um homem que imita Dante.
Este é um homem que se faz de Dante.
Este é um homem que sonha que é Dante.
Este é um homem que é a cara escarrada de Dante.
Esta é uma imagem de cera de Dante.
Este é um sósia, um duplo, um gêmeo.
Este é um homem que pensa ser Dante.
Este é um homem que todos, salvo Dante, pensam ser Dante.
Este é um homem que todos, salvo ele mesmo, pensam ser Dante.
Este é um homem que ninguém pensa ser Dante, salvo Dante.
Este é Dante.
Hans Magnus Enzensberger (1929),
poeta, filósofo, historiador, sociólogo,
um intelectual que vale a pena ser conhecido profundamente.
"Para os povos, a História é, e permanece sendo, um feixe de histórias. (...) Ela é aquilo que se observa, que se recorda e que pode ser narrado vezes sem fim: um recontar da história.
(...) A História é uma invenção para qual a realidade fornece os elementos. Não é, porém, uma invenção arbitrária."
(H. M. Enzensberger) - O curto verão da anarquia - Buenaventura Durruti e a Guerra Civil Espanhola
(um livro imprescindível a todos os que, historiadores ou não, interessam-se, sem preconceitos,
pelas narrativas ou análises historiográficas.)
"Mesmo a 'mentira' contém um momento de verdade, e a verdade dos fatos indubitáveis, supondo que exista, não afirma nada além."
(H.M. Enzensberger)
"O próximo a transmitir a história, pelo fato de aceitá-la ou recusá-la, lembrar-se ou ter-se esquecido dela, não prestar atenção ou continuar a narrá-la, este próximo, e provisoriamente o último da série, é o leitor."
(H. M. Enzensberger)
sábado, 28 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Literatura

Gosto demais de poesia, embora não seja versada em literatura.
Sou de uma família ligada às letras e às manifestações artísticas em geral, como "feitores" de artes ou apreciadores, como eu. Herdamos isso de meu pai, principalmente,e se algo tenho que agradecer a ele é isso.
Fazer ou degustar arte nos salva da angústia cotidiana e das mesquinharias da modernidade, onde "tudo o que é sólido desmancha no ar". A fruição de poemas e da boa literatura permitiu-me criar uma reserva de beleza e carinho só superável pela existência de meus filhos. Quando sinto-me miserável e eles porventura encontram-se longe, procuro pelos meus autores da alma e aqueço-me com suas escrituras.
Por isso, volta e meia colocarei aqui algum poema ou trecho de livros que me são caros.
Por isso, volta e meia colocarei aqui algum poema ou trecho de livros que me são caros.
É uma maneira de retribuir o que fazem por mim. Pois, antes de nascerem meus filhos, a literatura me salvou do desencanto, enredando-me em suas teias e dando uma nova dimensão ao meu irrequieto pensar.
Tenho conseguido transmitir isso aos meus filhos, que já apreciam poesias desde que começaram a ler (e até antes, diria).
Tenho conseguido transmitir isso aos meus filhos, que já apreciam poesias desde que começaram a ler (e até antes, diria).
É o meu legado, como foi o de meu pai para mim. Tenho conseguido com a boa literatura e a boa poesia (mais do que com manuais de educação) dar-lhes uma maneira de refletir a vida que não seja "fast food", fácil ou descartável. Porque se "tudo o que é sólido desmancha no ar" é preciso que cada um crie seu próprio oásis, seu suprimento de beleza, de conhecimento da dor alheia, de calor , de humanidade.
Por isso criarei aqui meu baú de preciosidades - minhas preciosidades.
Oxalá possam os eventuais visitantes gostarem também.
É o meu agradecimento e meu conforto.
Ada
Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares. ~
Hilda Hilst
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
De revolta e amor (ou: para não esquecer)
(...)
" Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.
(...)
Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender. Porque quem entende, desorganiza. (...)
(Clarice Lispector - Mineirinho in: Para Não Esquecer (crônicas) - Ed. Siciliano)
Ação de Graças
(em 02/01/2009)
Quero agradecer ao passado que, retornando de esquecidas memórias, me fez relembrar Marx :
"A história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa". O que me proporcionou tentar reconstruir um quebra cabeças, que acabou uma vez mais ficando incompleto.
É que, ao longo dos anos, (longos anos) perdem-se peças essenciais. E é importante saber que algumas imagens ficarão assim: incompletas. Nem por isso menos belas.
Por vezes persistir, colando remendos nos vazios pode resultar em algo grotesco, falso.
Falsas memórias nos espaços que o tempo engoliu.
Uma imagem verdadeira, mesmo que incompleta é sempre bela. A isso agradeço.
A oportunidade, dada a poucos, de tentar reconstruir. Ainda que para entender que nem no passado se encontravam as peças necessárias para compor um quadro harmônico. E, sobretudo, agradecer ao presente que me tem dado a oportunidade de refletir , entender e aceitar meus medos e os do Outro, tentando manter aquecido em mim o amor pela vida no que ela tem de mais rico: a diversidade das pessoas, suas riquezas e suas limitações.
Reconhecendo em mim o Outro que me atemoriza, me atrai, me ama, me rejeita, é forte, é fraco, é corajoso, é pusilânime, é contraditório, é maravilhoso.
Reconhecendo que se escolho olhar para um espelho não conhecerei nada, pois o espelho revela apenas a face que quero ver. A face mais bela. Ainda que o que É não me seja possível captar em sua totalidade.
Este ano começo meu longo e infindável aprendizado de amar ao Outro "na sua total e gratuita inutilidade"
E a dar o salto no escuro em direção à relacionamentos humanos que não sejam mesquinhos; fúteis, gratuitos.
Agradecendo a oportunidade de viver cada momento, sempre belo, mesmo que doído.
Adquirindo a sabedoria de que nada é nosso, mas que enquanto permanece é amor e depois que se vai tem que ser agradecimento e não rancor.
Que seja essa minha direção, meu caminho.
E minha ação (de graça)
(Ada)
" Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.
(...)
Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender. Porque quem entende, desorganiza. (...)
(Clarice Lispector - Mineirinho in: Para Não Esquecer (crônicas) - Ed. Siciliano)
Ação de Graças
(em 02/01/2009)
Quero agradecer ao passado que, retornando de esquecidas memórias, me fez relembrar Marx :
"A história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa". O que me proporcionou tentar reconstruir um quebra cabeças, que acabou uma vez mais ficando incompleto.
É que, ao longo dos anos, (longos anos) perdem-se peças essenciais. E é importante saber que algumas imagens ficarão assim: incompletas. Nem por isso menos belas.
Por vezes persistir, colando remendos nos vazios pode resultar em algo grotesco, falso.
Falsas memórias nos espaços que o tempo engoliu.
Uma imagem verdadeira, mesmo que incompleta é sempre bela. A isso agradeço.
A oportunidade, dada a poucos, de tentar reconstruir. Ainda que para entender que nem no passado se encontravam as peças necessárias para compor um quadro harmônico. E, sobretudo, agradecer ao presente que me tem dado a oportunidade de refletir , entender e aceitar meus medos e os do Outro, tentando manter aquecido em mim o amor pela vida no que ela tem de mais rico: a diversidade das pessoas, suas riquezas e suas limitações.
Reconhecendo em mim o Outro que me atemoriza, me atrai, me ama, me rejeita, é forte, é fraco, é corajoso, é pusilânime, é contraditório, é maravilhoso.
Reconhecendo que se escolho olhar para um espelho não conhecerei nada, pois o espelho revela apenas a face que quero ver. A face mais bela. Ainda que o que É não me seja possível captar em sua totalidade.
Este ano começo meu longo e infindável aprendizado de amar ao Outro "na sua total e gratuita inutilidade"
E a dar o salto no escuro em direção à relacionamentos humanos que não sejam mesquinhos; fúteis, gratuitos.
Agradecendo a oportunidade de viver cada momento, sempre belo, mesmo que doído.
Adquirindo a sabedoria de que nada é nosso, mas que enquanto permanece é amor e depois que se vai tem que ser agradecimento e não rancor.
Que seja essa minha direção, meu caminho.
E minha ação (de graça)
(Ada)
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